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Entrevista Exclusiva com Ken Follett
Lançamento mundial de O Inverno do Mundo
«Demorei seis meses a pensar na história desta trilogia»

Já vendeu 130 milhões de cópias em todo o mundo e foi adaptado para cinema e televisão. Começa a escrever todos os dias às 7h da manhã. E ainda toca balalaica.

Com um sotaque britânico carregado, Ken Follett atendeu o telefone bem-disposto e contou que já está a escrever um novo romance. Mantém a disciplina de se levantar bem cedo para trabalhar até meio da tarde. A entrevista telefónica que concedeu à SÁBADO foi uma exceção. Na próxima semana é lançado em todo o mundo o seu livro mais recente, O Inverno do Mundo, publicado em Portugal pela Editorial Presença, o segundo volume de uma trilogia sobre o século XX. O escritor revelou pormenores do terceiro volume que vai encerrar a série e que terá memórias de juventude. Contou também como foi a experiência de pertencer ao círculo do poder - a sua mulher integrou o último governo trabalhista britânico e o primeiro-ministro Gordon Brown era visita de casa.

Depois de uma rigorosa educação na infância, Follett tornou-se um adolescente rebelde. Contra a vontade dos pais, começou a tocar rock às escondidas - um passatempo que mantém, reunindo-se com os amigos da sua banda, Damn Right I've Got the Blues. Estudou filosofia na Universidade de Londres e quando terminou o curso tornou-se jornalista. Foi por passatempo que começou a escrever histórias de espionagem.
O primeiro sucesso foi O Buraco da Agulha, em 1979, cujos lucros, incluindo a adaptação ao cinema, lhe permitiram deixar o emprego. Outras adaptações, para televisão, incluem O Terceiro Gémeo (The Third Twin), com Kelly McGillis, e Os Pilares da Terra, série a partir de um dos seus maiores êxitos de vendas.

Como se preparou para escrever esta trilogia sobre o século XX?
Comecei por estudar a História do século passado. Depois, isolei os acontecimentos que queria retratar. Decidi que o primeiro livro seria sobre a I Guerra Mundial, o segundo sobre a II e o terceiro sobre a Guerra Fria. Depois comecei a pensar como poderia criar um grupo de personagens que entrassem nos principais acontecimentos históricos.

Essa parte demorou muito tempo?
Isso foi o mais difícil, porque os acontecimentos decorrem em várias partes do mundo. Eu queria ter um grupo de personagens reduzido. Centrei-me em cinco famílias. Gastei cerca de seis meses a pensar na história de toda a trilogia e só depois é que me concentrei no primeiro livro.

Preparou-se de que forma? Foi visitar as cidades que retrata?
Já conhecia a maior parte das cidades referidas nos livros. Tinha estado em Berlim, Washington, Londres, Paris, S. Petersburgo e Moscovo. Mas precisava de ir conhecer alguns lugares fundamentais para a história. Para O Inverno do Mundo, precisei de ir visitar o centro de Espanha, especialmente a vila de Belchite, onde decorreu uma das batalhas mais importantes da Guerra Civil espanhola, e onde nunca tinha estado. Fui lá em visita de estudo para ver a paisagem com os meus próprios olhos.

Porque escolheu Espanha como cenário para uma boa parte do livro?
Incluí a guerra civil espanhola porque foi uma das mais importantes na História da humanidade. É simbólica, foi a primeira da luta contra o fascismo.

Incluiu memórias suas nesta trilogia?
Nasci em 1949 e o terceiro livro começa em 1961, com a construção do muro de Berlim. Eu tinha 12 anos e lembro-me bem de acontecimentos marcantes.

Que recordações tem da sua infância?
O meu pai era cobrador de impostos e um grande leitor de novelas. Também líamos muito a Bíblia lá em casa. Não tínhamos televisão porque os meus pais pensavam que era uma má influência. Eu não tinha autorização para ir ao cinema, ao teatro ou ouvir rock and roll.

Era um rebelde?
As coisas proibidas são as mais desejadas. Ouvia música em casa de amigos e quando me tornei adolescente passei a ir ao cinema sem dizer aos meus pais.

É verdade que escreveu o seu primeiro livro para pagar o arranjo do carro?
Sim. Escrevi O Buraco da Agulha [Eye of the Needle] nos anos 70 e vi que podia sobreviver só da escrita. Acho que o livro era excitante do princípio ao fim. O suspense era sempre mantido.

Usou a experiência pessoal nos novos livros?
O mais importante na minha juventude foi a Guerra do Vietname. Tal como milhares de outros jovens estudantes, também fui às manifestações em Londres, em frente à embaixada norte-americana em Grosvenor Square. Foi um período em que participei activamente na política. E isso vai estar no próximo livro.

Que memórias tem das cidades que retratou?
Lembro-me de que em Moscovo fui almoçar com o meu editor e tive de pagar o meu almoço. Foi a primeira vez que isso me aconteceu [risos].

Chocou-o o novo capitalismo da cidade?
Acho que a Rússia ainda é um país muito pobre e, por isso, muito sujo. Lá, as pessoas não têm a tradição de serviço. Quem trabalha num restaurante não está ali para agradar aos clientes. Isso vai mudar certamente.

Como é a sua rotina quando escreve?
Trabalho de segunda-feira a sábado. Começo às 7h e acabo por volta das 16h. Faço muita pesquisa a ler obras que tenho em casa - 95% do que preciso de saber para os meus romances encontro nos livros. Ao domingo faço tudo o resto. Ah, e dou entrevistas...

Teve um pequeno papel na série Os Pilares da Terra, baseado nos seus livros. Como foi?
Senti-me um privilegiado ao entrar numa cena com Eddie Redmayne e outros actores muito bons. Eu era um simples amador. Aprendi muito, por exemplo que não conseguimos representar bem se não soubermos as nossas deixas na perfeição.

O processo de maquilhagem foi difícil?
Não, mas para grande surpresa minha é extremamente demorado. Lembro-me de que o caracterizador passou imenso tempo a pintar manchas de terra e sujidade nas minhas mãos, porque as pessoas na Idade Média não tinham o hábito de se lavar. Não imaginava que um filme envolvesse tantos detalhes.

Quanto demorava a sua caracterização?
Muito tempo, duas a três horas. Durante o dia inteiro em que participei nas filmagens só se produziram 15 segundos do filme final. Começou de manhã com a maquilhagem, depois fomos para o cenário e ensaiámos as cenas. Eu disse as minhas deixas, a cena foi filmada de sete ângulos diferentes e só no fim do dia é que fomos todos para casa.

Continua a ter tempo para os seus passatempos, como tocar balalaica e baixo?
Sim. Ainda toco com a minha banda. Normalmente, ensaiamos à segunda-feira à noite. Somos seis e todos temos carreiras fora da música, não temos muito tempo, só conseguimos juntar todos os elementos duas vezes por mês.

Era comum tocar com outro escritor de sucesso, Stephen King. Continua a fazer isso?
Já há alguns meses que não nos vemos, mas, na última vez que veio ao Reino Unido, encontrei-me com ele e fomos tocar um pouco.

Até 2010, a sua mulher, Barbara Hubbard, pertenceu ao governo britânico. Algum episódio dos bastidores do poder o inspirou para os seus livros?
Estar casado com um membro do governo é uma experiência muito enriquecedora. Durante cerca de 13 anos, o Reino Unido foi governado pelos meus amigos.

Que amigos?
Não queria nomear ninguém em concreto.

A sua mulher foi secretária da Cultura...
Era normal jantar com vários membros do governo e passámos férias com alguns ministros. A forma como as decisões políticas são tomadas passou a ser familiar para mim.

O primeiro-ministro visitava a vossa casa?
Tony Blair não era um amigo muito chegado. Eu não gostava assim tanto dele. Mas Gordon Brown sim, e jantava muitas vezes em nossa casa.

Assinou um manifesto contra a visita do Papa Bento XVI ao Reino Unido, no ano passado. Porquê?
A atitude da hierarquia da Igreja Católica em relação aos padres que abusaram sexualmente de crianças não me agradou.

A Igreja devia ser mais severa?
Acho que toda a gente deve denunciar um crime de que tenha conhecimento. E comunicá-lo à polícia. Quem sabe que um crime está a ser cometido e não o denuncia às autoridades também está a ser cúmplice desse crime. Por isso, penso que toda a gente devia seguir esse princípio, incluindo o Papa. E ele não o fez.

Quando estava a escrever Os Pilares da Terra, pensou que toda a violência da construção de uma catedral era reflexo da Igreja Católica?
O meu livro não é uma metáfora. É simplesmente uma história sobre a construção de catedrais. Não tem nenhum segundo significado escondido. Ao escrever essa história simplesmente quis mostrar que dentro da Igreja, como noutra qualquer instituição, há pessoas boas e pessoas más. Isso é muito claro em Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim, a minha outra novela medieval.

Os livros da sua nova trilogia têm entre 800 e 900 páginas. Não teme que isso afaste leitores?
Não creio. As pessoas adoram livros longos. Recebo dezenas de mensagens de leitores que gostariam que os livros fossem ainda maiores. Mas percebo o que quer dizer, é normal que as pessoas fiquem um pouco nervosas e apreensivas antes de comprarem um livro muito grande. Os livros só são rejeitados se forem aborrecidos. As vendas do primeiro volume da trilogia, A Queda dos Gigantes, foram muito boas.

Já pode revelar um pouco da história do último livro desta trilogia?
O terceiro livro vai chamar-se Edge of Eternity [que se poderá traduzir por À beira da eternidade]. A ação começa em 1961, quando se inicia a construção do Muro de Berlim, e termina em 1989, com o seu derrube. Vou abordar alguns dos acontecimentos mais marcantes da Guerra Fria.

Quais?
Posso adiantar que algumas das passagens mais importantes serão sobre vários assassinatos que marcaram o século XX, como o do Presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy e do seu irmão Robert Kennedy. Também vou falar da morte de Martin Luther King e da crise dos mísseis de Cuba, por exemplo. E mais não posso dizer.


História do séc. XX
O novo livro de Ken Follett, O Inverno do Mundo, retrata a II Guerra Mundial

A saga de cinco famílias, de nacionalidades americana, russa, inglesa, alemã e escocesa, faz a história de O Inverno do Mundo, o segundo livro da trilogia de Ken Follett, iniciada com A Queda dos Gigantes (livro centrado na I Guerra Mundial). Desta vez, é retratada a segunda geração de personagens, que vão viver de perto os acontecimentos mais importantes das décadas de 30 e 40, desde a tomada do poder por Hitler ao lançamento da bomba atómica.

 

Data de publicação: 13/9/2012
Fonte: Sábado
Jornalista: Luís Silvestre