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Brincar com o Fogo
O Fenómeno Literário que está a Conquistar o Mundo

Adolescente em perigo. Um triangulo amoroso. Baseado numa popular série de livros para jovens adultos. Acha que Os Jogos da Fome é só mais um pretendente a Twilight? A Empire apresenta cinco razões que o vão fazer mudar de opinião.

Quando começou a ler Os Jogos da Fome, de Suzanne Collins, Gary Ross só conseguiu parar na última página. 

O argumentista e realizador de Viagem Ao Passado e Nascido Para Ganhar tinha pegado no livro por recomendação dos seus filhos. Ross começou a ler numa sexta-feira às 22h00 e terminou no mesmo dia à 1h00. Na segunda-feira seguinte apanhou um avião para Inglaterra para falar com Nina Jacobson, a produtora da adaptação cinematográfica.

Quando Jennifer Lawrence leu Os Jogos da Fome, diz que "compreendeu" o livro. É a história de uma rapariga que é retirada de uma vida simples mas árdua e que é transportada para um mundo glamoroso mas cheio de perigos, onde é enfeitada com belos vestidos e forçada a participar num espetáculo televisivo - neste caso, uma luta até à morte transmitida para toda a nação. "Ela não percebe", diz Lawrence sobre a protagonista Katniss Everdeen, que é colocada na ribalta nacional. "Ela pensa que tem um aspeto estranho e desconfortável." A atriz sentiu-se de imediato identificada com a personagem, após ter sido colocada subitamente sob os holofotes quando a sua excelente interpretação no indie Os Despojos de Inverno lhe valeu uma nomeação para o Oscar de Melhor Atriz. "Tocou-me a um nível pessoal."

Até à data, já foram vendidos quase três milhões de livros em papel e mais um milhão em suporte eletrónico. Passou cem semanas na lista de bestsellers do New York Times. Inevitavelmente, surgiram comparações com Twilight. Não há dúvida: a adaptação de Ross também será colocada na ribalta. E mesmo que o estúdio da Lionsgate ficasse, sem dúvida, extasiado se o seu filme atingisse os mesmos números da série de Stephenie Meyer, as comparações devem terminar por aqui. Esta história envolve muito mais que um romance angustiado entre adolescentes. Os Jogos da Fome estão prontos para a luta.


1. Vai ser brutal
Na América pós-apocalíptica e distópica (rebatizada de Panem) criada por Suzanne Collins, 24 jovens, dois de cada um dos 12 Distritos em que a nação está dividida, são transportados até ao "Capitol" e forçados a combater até à morte. Apenas um pode sobreviver. Vão ser eliminados por vespas gigantes mutantes, levar pedradas na cabeça e ser trespassados por lanças. Vão comer bagas venenosas, sofrer facadas nas costas e enfrentar cães mutantes. Haverá mortes; algumas delas rápidas e chocantes, outras lentas e agonizantes.

O romance de Collins, o primeiro de uma trilogia, foi publicado em 2008 e recebeu críticas fantásticas, misturando uma sátira aos reality shows com a história de Roma Antiga e ficção científica. Stephen King confessou-se um grande fã.

"É real e violento", diz Lawrence em conversa com a Empire num hotel londrino no início de dezembro. "Se diminuíssemos a violência..." Ross e Jacobson tiveram de comprometer-se com uma classificação para menores de 18, caso contrário deixariam de fora metade do seu público-alvo. Mas Lawrence assegura que o impacto da história não se perdeu: "Mesmo que não mostremos muito sangue."

"Acho que não tem de ser violento para ter impacto", insiste Ross. "Durante grande parte do filme, a Katniss está a ser perseguida e está num universo violento. Mas isso não significa que a violência tem de ser mostrada de uma forma grotesca ou exploradora."

Mesmo assim, ação não vai faltar, e como tal este mostrou-se um desafio físico exigente para o elenco, em especial para a protagonista. Lawrence começou a treinar assim que terminou as filmagens de X-Men: O Inicio. Tiro com arco, acrobacias, corrida, combate... E de seguida começaram as filmagens. A atriz diz-nos que no primeiro dia estavam 45º C e 10% de humidade. "Foi horrível. Tive de correr por um campo com erva comprida e depois participar numa luta. Fisicamente, foi brutal. Uma loucura."

Filmar cenas de ação tão intensa levou a alguns apontamentos estranhos por parte do realizador. "Disse ao Gary que ia compilar as notas dele num livro porque eram sempre tão engraçadas", ri-se Lawrence, recordando a altura em que Ross lhe disse para "não pensar como um orangotango". Isto aconteceu durante uma cena em que Lawrence corre por uma floresta e uma bola de fogo embate numa árvore junto de si. A atriz sentiu o impacto e, sem se aperceber, levantou os braços por cima da cabeça num círculo perfeito. "Depois vi as imagens", diz Lawrence, "e percebi que era mesmo igual a um orangotango..."



2. Tem uma protagonista forte
No centro de toda a violência está uma personagem que pode muito bem vir a ser a melhor jovem protagonista do século XXI. A adolescente Katniss Everdeen é a única pessoa que impede que a sua família morra à fome e acaba por se voluntariar para os Jogos em substituição da sua irmã mais nova. "Neste universo agreste onde estes miúdos têm de lutar pela sobrevivência, a Katniss luta por aquilo que a torna humana", explica Ross. "A princípio só quer sobreviver, mas no final encontra algo por que vale a pena morrer. É um mundo muito agreste, uma premissa muito violenta, mas sob tudo isto há um caráter humano. Acho que é isso que tem atraído as pessoas até ao livro e até à Katniss."

Ross decidiu contar a história por inteiro do ponto de vista de Katniss, mantendo a narrativa na primeira pessoa de Collins. "Se olhássemos para esta história do exterior", diz o realizador, "seria a história mais proibitiva do mundo. Mas a Suzanne teve o cuidado de a escrever a partir do interior, por isso temos estes desejos humanos que emanam de uma protagonista bem desenhada. Tentei fazer o filme da mesma maneira. Estamos na pele da Katniss. Não damos ao espetador informação que a protagonista não tem, e filmamos com um estilo subjetivo, por isso seguimos por este caminho sinuoso com a Katniss."

O papel de Katniss - ao mesmo tempo determinada e aterrorizada, e mais competente do que os seus adversários suspeitam - exigia uma atriz dura, graciosa mas inabalável, que conseguisse projetar firmeza em vez de sexualidade. Foi com estes parâmetros que começou a busca que, segundo informações, passou por 30 atrizes, incluindo Saoirse Ronan, Chloe Moretz, Emma Roberts e Hailee Steinfeld. Mas, segundo Ross, tinha mesmo de ser Lawrence. "Se ela ainda não tivesse nascido, não sei o que teria feito", conta. "Trabalho com muitos atores fantásticos, mas acho que nunca trabalhei com ninguém tão talentoso. Ela tem uma enorme vitalidade; sabe quais são os seus pontos fortes e não os esconde. É uma heroína muito moderna. Quando fez a leitura do guião fiquei embasbacado."

Mas houve algum ceticismo por parte dos fãs, que pensavam que Lawrence era demasiado velha (e loira) para o papel. A própria Lawrence pensou duas vezes - ao aceitar ser protagonista de uma nova saga, elevaria a um novo nível a sua perceção aos olhos do público. "Se [o filme] tiver tanto sucesso como antecipamos", explica, "vou ter de fazer mudanças na minha vida - sistemas de segurança e essas coisas todas. Vivo junto à praia e não tenho preocupações. É algo difícil de encarar, ver a nossa vida a mudar completamente. Mas não quis deixar o medo dominar a minha decisão."

Jennifer Lawrence exibe em pessoa a mesma graciosidade e determinação que já vimos no grande ecrã, e não é de todo uma estrela obcecada com a gestão da sua imagem. Ri-se às gargalhadas quando nos conta o seu primeiro encontro com Woody Harrelson, que tem o papel do seu mentor, Haymitch. Ao ver um estranho aparelho na caravana deste, a atriz acusou-o de ter um "baloiço para fazer sexo". (Mais tarde Harrelson assegurou-nos que servia para praticar ioga.) Existem também semelhanças incontornáveis entre Katniss e Ree Dolly, a sua personagem em Despojos de Inverno - ambas vivem até numa montanha, em casas em mau estado. "Vejo semelhanças", diz Lawrence. "São ambas jovens adultas que têm de lidar com uma responsabilidade tremenda e de lutar para proteger a sua família. Nesse aspeto, são muito parecidas." Mas comparada com Katniss, Ree era uma favorecida, tendo de suportar espancamentos, descobrir cadáveres e enfrentar viciados em metanfetaminas - já Katniss depara-se com uma sociedade inteira que clama pelo seu sangue.


3. É localizado numa distopia envolvente
Essa sociedade, dividida nos 12 Distritos já mencionados, tem como ponto central o Capitol, que a gere com um punho de ferro. Ross filmou as cenas do Distrito 12 de Katniss em florestas e edifícios industriais abandonados na Carolina do Norte, mas o Capitol necessitou de um tratamento diferente. Nos livros de Collins, esta cidade é intimidante, e os seus habitantes são pessoas aborrecidas e mimadas que passam as horas a desenhar vestuário cada vez mais ultrajante. "O contraste que o Gary criou com os responsáveis pelo set foi incrível", sorri Josh Hutcherson, que interpreta Peeta, o colega do Distrito 12 de Katniss, ou "Tribute". "Vemos alternadamente os Jogos, onde decorrem as batalhas, e o Capitol, onde as pessoas bebem cocktails enquanto veem TV."

"É localizado no futuro, mas precisa de um passado", explica Ross. "Por isso, o Capitol precisava de ter uma história de fundo. Escolhemos edifícios grandes, monumentais. Inspirámo-nos no brutalismo de meados do século XX - e apercebi-me de que o poder é expresso através de espaços abertos, e esse foi o primeiro ponto de referência. Olhámos para locais como a Praça Vermelha e partimos daí."

Os Jogos começam com um confronto aberto entre os participantes e depois evoluem para uma campanha de guerrilha. Alguns dos Tributes mais fortes, originários de Distritos onde ser escolhido para os Jogos é uma honra em vez de um horror, formam grupos e percorrem a arena em busca de presas fáceis, enquanto outros se escondem e montam armadilhas. E o facto de tudo isto ser transmitido pela TV faz aumentar a parada: os controladores sádicos dos Jogos, liderados por Seneca Crane (Wes Bentley), podem introduzir novos perigos na Arena ou mudar as regras para cativar as audiências.

Existe um óbvio paralelismo com Battle Royale, o filme de culto de Kinji Fukasaku, onde num futuro próximo um grupo de jovens delinquentes japoneses são transportados até uma ilha, onde recebem armas e ordens para se matarem até apenas um sobreviver. Mas Ross tenta contornar a comparação. "Acho que isso é algo que é visto do exterior. [O meu filme] é algo que vem de dentro para fora, a partir da pele da Katniss. Também tem a ver com a estrutura da sociedade - a forma como a Suzanne criou a relação entre o Capitol e os Distritos, e a forma como usam os Jogos para segregar as pessoas e como forma de entretenimento. Por isso, sim, é verdade que já existiram premissas como esta. Mas é a sua interpretação [que distingue Os Jogos da Fome]."



4. Tem um elenco fantástico
Katniss não está sozinha. Para além de formar uma aliança improvável com uma jovem chamada Rue (Amandla Stenberg), também trava amizade - e talvez um romance - com um Tribute chamado Peeta (Josh Hutcherson). "O Peeta sabe o que vai acontecer se tiver de lutar com a Katniss, porque está apaixonado por ela", diz Hutcherson. "Mas a Katniss tem de sobreviver pela sua família, por isso as coisas são diferentes para ela e não tem tanta certeza."

Para além de mal conhecer Peeta, Katniss suspeita que a sua declaração pública de amor pode ser uma tática - e para além disso suspeita estar apaixonada por Gale (Liam Hemsworth, o irmão mais novo do Thor), de cuja companhia desfruta durante as suas caçadas. Hemsworth diz que "Gale é muito parecido com Katniss: está sempre à procura de uma forma de lutar contra o sistema, mas é impotente, está sozinho. Acaba por ter de ficar a ver a sua amiga a lutar pela vida e não quer vê-la morrer. Mas o que poderá fazer contra o governo?"

Não se deixe assustar pela sugestão de um triângulo amoroso. "Isto não são histórias de amor", enfatiza Hemsworth. "Não são apresentadas de forma sexy. O importante para Katniss não são as relações, é a sobrevivência. O único paralelismo entre esta história e Twilight é o facto de ambos terem legiões de fãs."

As personagens mais importantes do Capitol são interpretadas por um elenco adulto impressionante. Para além de Woody Harrelson, Stanley Tucci interpreta o apresentador dos Jogos, Caesar Flickerman (que tem uma peruca azul e pele laranja); Donald Sutherland é o Presidente Coriolanus Snow, líder do regime totalitário de Panem; Lenny Kravitz é o estilista de Katniss, Cinna; e Elizabeth Banks é Effie Trinket, a representante do Capitol no Distrito 12, encarregue de escoltar os Tributes até à cidade.

"Algumas pessoas olham para Effie como um elemento cómico, e outras como um fantoche do Capitol, mas acho que ela é mais complicada que isso", explica Banks. "Ela percebe que tudo o que conseguiu até agora pode ser-lhe retirado a qualquer momento; neste mundo, todas as personagens sabem que a qualquer momento podem ficar sem língua. Por isso, há momentos em que Effie apoia os seus Tributes, e outros em que providencia momentos cómicos, porque leva tudo tão a sério e é demasiado otimista sobre coisas em que o resultado é predeterminado."



5. Tem um tom satírico
Banks não concorda com as comparações com Twilight. Nem sequer menciona Battk Royale, ou outros filmes que sugerem que um dia a morte será um espetáculo televisivo, como The Running Man ou Series 7: The Contenders. "Comparo-o com O Senhor dos Anéis ou O Senhor das Moscas ou 1984. Eu gosto dos filmes de Twilight, mas não sei se dizem algo sobre a sociedade. São fantasia. Nós estamos a fazer um filme com um tema."

Suzanne Collins teve a inspiração para Os Jogos da Fome uma certa noite enquanto fazia zapping entre um noticiário que mostrava jovens soldados a correrem para a sua morte no Afeganistão e um realitv show ao estilo de Survivor. E se os dois fossem misturados num só? Não é uma premissa assim tão rebuscada. "Isto é a coisa mais importante que já fiz", diz-nos um normal participante num reality show. "A minha família e a minha cidade contam comigo. Não posso desistir. Tenho de ganhar." E estão a falar sobre um programa de karaoke ou sobre uma série em que estão trancados numa casa. Mas e se tivessem mesmo de lutar pela vida; e se a hipérbole se transformasse em verdade?

"Estamos todos ansiosos para ver a nova temporada dos Kardashians para contemplar um casamento a destruir-se", refere Lawrence. "Isto é algo devastador para os envolvidos, e nós podemos vê-lo na televisão. Estamos cada vez mais insensibilizados com as coisas que vemos na TV." A atriz sorri de forma irónica. "O sofrimento dos outros acaba por ser o nosso entretenimento."

Data de publicação: 1/3/2012
Fonte: Empire