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Para ler como se fosse uma viagem

Com poucas semanas de vida pela frente, devido a uma doença rara, mas incurável diagnosticada pelos médicos, um profissional bem sucedido chamado Ambrose Zephyr decide que, em vez de lamentar-se pelo infortúnio, vai aproveitar o escasso tempo disponível para cumprir sonhos que foi sempre adiando ao longo do meio século.

Por isso, acompanhado pela esposa, Zappora Ashkenazi, inicia uma longa jornada por 26 locais espalhados pelo Mundo, cada qual correspondendo a uma letra específica do alfabeto.

É esta a estimulante premissa de O Fim do Alfabeto, relato que, ao contrário do que se poderia pensar, não encerra propósitos turísticos. Mesmo quando descreve as viagens por destinos estimulantes, como Amesterdão, a verdadeira jornada relatada por Richardson é mais de ordem interior do que qualquer outra coisa. Ao ver o tempo que lhe resta escoar-se com toda a rapidez, Ambrose reflecte sobre o significado da existência. Não de uma forma excessivamente nostálgica, mas com a convicção de que o seu estado precário exige uma plenitude e uma entrega totais, cuja prossecução só pode ser alcançada se colocar de lado a saudade por abandonar em breve este Mundo.

Se as bases do livro não primam pela vulgaridade, também o modo como o narrador descreve essas impressões sobre o que o rodeia acaba por escapar ao banal. Incorporando diálogos no meio da narrativa ou contando factos de forma aleatória, C. S. Richardson fez do seu livro uma ode exótica que, mesmo sem ser uma obra-prima, tem a virtude de distinguir-se do tom lacrimejante e emocionalmente gratuito com que tantos livros hoje são escritos.

As críticas favoráveis recebidas pelo livro O Fim do Alfabeto ganham ainda maior expressão pelo facto de tratar-se da primeira incursão literária do designer C. S. Rirchardson. Nessa área, o autor conquistou um prestígio enorme, como o prova o Prémio Alcuin, o principal galardão existente no Canadá para o design de livros, que recebeu por mais de uma vez.

Data de publicação: 29/3/2010
Fonte: Jornal Notícias
Jornalista: Sérgio Almeida