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"Voltarei a escrever para crianças porque adoro fazê-lo"

A 24 horas de se ler o sucessor de Harry Potter.

J. K. Rowling deverá estar a viver o habitual pânico entre escritores que lançam um segundo livro após a publicação de um primeiro que lhe fugiu das mãos e se tornou um grande sucesso. É certo que o primeiro grande sucesso, Harry Potter e a Pedra Filosofal, desdobrou-se por mais seis volumes e tornou-se uma das sagas mais vendidas em todo o mundo, porque contava a história de um feiticeiro órfão que seduziu o público específico a que se dirigia e, ao mesmo tempo, milhões de adultos.

Com o treino de cinco mil páginas potterianas, não seria de admirar que a segunda obra fosse uma tarefa mais fácil de concretizar, mas Rowling não seguiu esse caminho e decidiu escrever um romance para adultos que se chama Uma Morte Súbita. Uma obra que desde que foi para as livrarias provoca diferentes sensações nos leitores, já que para uns o relato de 485 páginas sobre a morte repentina de um membro da Associação Comunitária de Pagford e os seus efeitos na vitória inglesa sabem a pouco, enquanto para outros é uma deliciosa surpresa pós Harry Potter e os Talismãs da Morte e um relato da vida britânica tão perfeito que só poderia ser escrito por esta autora.

A aposta da Editorial Presença em Uma Morte Súbita é enorme, até porque pretenderá conquistar o topo da tabela já esta semana e manter-se nesse lugar durante semanas. Para a editora que há uma década publica a saga, que fez a tradução em tempo recorde, e antes da maioria dos países europeus, este é o "bestseller do Natal". Na promoção que faz do recente romance da autora, a Presença destaca as críticas do The Observer - "Um romance maravilhoso" -, da revista Time - "imponente, ambicioso, brilhante e profano" -, ou do The Economist - "esplendidamente delineado" -, ignorando as que dividiram a crítica especializada mal o romance foi lançado em Londres, a 27 de setembro.

Numa das raríssimas entrevistas que J. K. Rowling concedeu, e que o DN publica hoje, a escritora não se escusa a responder a quem lhe exigia um livro diferente: "Os escritores têm de escrever aquilo que necessitam de escrever. Eu precisava de escrever este livro." Para Rowling, a questão ficou encerrada ao apontar os temas universais que trata - conflitos familiares e tensões entre pais e filhos - num cenário de uma Pagford que lembrará Agatha Christie, ao mesmo tempo que "Introduz uma violência social que faz lembrar os piores pesadelos do jovem Potter.

Uma coisa é certa, Uma Morte Súbita chega às livrarias amanhã. E será o início de uma nova J. K. Rowling!


"A certa altura fui muito pobre e conheci pessoas iguais às personagens do livro"



Este livro é totalmente diferente de Harry Potter. O que é que a levou a escrevê-lo?
Desta vez, a ideia surgiu-me num avião e não num comboio, e fiquei imediatamente muito entusiasmada. É também um romance sobre a moralidade e a mortalidade, tal como Harry Potter, mas num ambiente contemporâneo. Passa-se numa pequena comunidade e exigiu a criação de personagens que vão desde adolescentes até sexagenários. Adoro os romances do século XIX que se centram numa pequena cidade ou numa aldeia. Esta é a minha tentativa de criar uma versão moderna.

Por que motivo é que o livro, na sua versão original, se intitula Uma Morte Súbita [The Casual Vacancy]? Houve outros títulos possíveis?
O título provisório era Responsible, pois um dos seus temas principais é a responsabilidade que cada um de nós tem pela própria vida - a nossa felicidade, a saúde, a riqueza e também a responsabilidade que temos em relação aos outros, os nossos companheiros, os filhos e a sociedade em geral. Mas quando me deparei com a expressão "casual vacancy", que designa um lugar que foi deixado vago numa assembleia devido à morte de um dos seus membros, decidi de imediato que o título definitivo seria esse. É um título que me diz muitas coisas diferentes. Em primeiro lugar, pareceu-me que a expressão significa a própria morte, que chega frequentemente sem grande alarde e cria um vazio impossível de preencher. Sabia também que todas as minhas personagens têm faltas e carências que tentam preencher de diversas formas: com comida, bebida, drogas, fantasias ou comportamentos rebeldes. Também podemos designar tudo isso com essa mesma expressão: todos os nossos pequenos vazios de que talvez não estejamos inteiramente conscientes mas que ainda assim precisamos de mitigar.

Este romance tem sido descrito como uma comédia negra. Pode adiantar algo mais sobre o humor neste livro?
O humor é bastante negro. Pessoalmente, não descreveria o romance como comédia negra, talvez como uma tragicomédia!

Acha que é um romance particularmente britânico? Até que ponto trata especificamente da Grã-Bretanha de hoje e até que ponto contém temas universais?
Embora o lugar e as personagens sejam, creio eu, tipicamente ingleses, trato temas universais. As questões sociais que coloco são relevantes em qualquer lado: conflitos familiares e matrimoniais, as tensões entre pais e filhos, o conflito ideológico entre a ênfase na autossuficiência e o apoio fornecido pelo Estado.

É um livro sobre uma comunidade dividida, e uma das divisões ocorre entre adultos e jovens. Porquê?
À medida que, nas sociedades ocidentais desenvolvidas, as famílias se debatem cada vez mais com a falta de tempo, as crianças e os adolescentes estão a receber uma educação diferente de quem cresceu nos anos cinquenta e sessenta. Existe igualmente uma enorme distância entre as gerações no que respeita à comunicação. O Facebook, o Twitter e as mensagens de texto são o território dos jovens, e creio que um dos desafios dos pais de hoje, ainda mais do que nas gerações anteriores, é compreender as questões relativas às redes sociais, com as quais é frequente os adultos não estarem muito familiarizados.

O que a atrai na escrita sobre a adolescência?
Penso que é a fragilidade dos adolescentes, embora eles sejam muitas vezes estigmatizados como perigosos e destrutivos. É um período muito vulnerável da nossa vida. Quando saímos da infância, apercebemo-nos de que temos de viver a vida, com tudo o que isso implica. Ganhamos a consciência do que é viver e da passagem do tempo, de uma forma que as crianças não se apercebem tão bem. É frequente os adolescentes viverem com pais de meia-idade e, assim, temos na nossa família esta combinação volátil entre o adolescente, que se apercebe de súbito que vai ter de fazer escolhas e assumir a responsabilidade pela sua própria vida, coabitando com pessoas que talvez lamentem as escolhas que fizeram, ao mesmo tempo que se tornam cada vez mais conscientes da sua própria mortalidade. Pode ser uma combinação bastante explosiva. Neste romance é-o certamente.

Neste livro aborda questões sérias, incluindo a automutilação, a experimentação sexual, o uso de drogas e a violação. Como procedeu à investigação?
Não fiz investigação no sentido de precisar de sair e pesquisar sobre estas coisas a partir do nada. Embora seja uma obra de ficção - nenhuma personagem se baseia em qualquer modelo vivo -, conheci pessoas semelhantes a estas personagens no decurso da minha vida um tanto fora do comum. A certa altura, fui muito, muito pobre. É óbvio que ocorreu uma enorme inversão em termos de prosperidade, pelo que estou profundamente grata. Mas conheci pessoas iguais a cada uma das personagens do livro.

Até que ponto usou a sua experiência como professora?
Foi útil. Ensinei na escola pública, o que significa que dei aulas em escolas onde não existia qualquer processo de seleção. Em cada turma existia um grupo muito variado de alunos. Esse facto inspirou decerto a forma como retratei os adolescentes, embora tenha recorrido mais à minha experiência de aluna numa dessas escolas e às minhas recordações da adolescência.

A experiência como mãe influenciou a escrita?
Neste romance há uma grande variedade de mães. Três personagens ficaram grávidas acidentalmente e, no contexto do tema da responsabilidade, isso constituiu uma oportunidade para explorar de que forma a biologia feminina influencia a vida de uma mulher, mesmo hoje em dia, em que se tem fácil acesso à contraceção. Neste romance há pais bem-intencionados, mas de uma forma geral diria que os cinco personagens adolescentes deste livro sofreram até certo ponto com erros da parte dos pais. Por exemplo, criei uma família em que ambos os pais são médicos e onde a necessidade de se ser bem-sucedido é transmitida para a geração seguinte: também os filhos têm de ser bem-sucedidos. Uma pressão muito própria da classe média. No outro extremo do espectro social existe uma adolescente que vive no seio de uma família extremamente carenciada e que tem de cuidar da própria mãe. Mas educar os filhos é a coisa mais difícil do mundo, e creio que o reconhecimento desse facto nos ajudaria a todos!

É essa a tensão central do livro?
É uma grande fonte de tensão, mas existem outras fontes de conflito, por exemplo o conflito entre as exigências da vida familiar e do trabalho. Contudo, a fonte principal de conflito é um choque de valores há muito existente em Pagford, uma bonita cidadezinha rural, mas que é responsável por um bairro social onde abundam o desemprego e a dependência das drogas.

Que pode dizer às pessoas que esperavam algo mais próximo de Harry Potter?
Os escritores têm de escrever aquilo que querem escrever, ou melhor, aquilo que necessitam de escrever. Eu precisava de escrever este livro. Portanto, espero que algumas pessoas gostem dele. Não me incomoda o facto de talvez algumas pessoas não gostarem e certamente não me perturba haver alguém que queira mais livros de Harry Potter. Considero isso um cumprimento! Voltarei de certeza a escrever para crianças, porque adoro fazê-lo e duvido que alguma vez deixe de o fazer.

Que vai escrever a seguir?
Não quero ficar comprometida com isto - porque adoro não estar sujeita a prazos -, mas creio que o próximo livro que publicar será para crianças. Tenho algo no meu portátil que está quase pronto. Contudo reservo-me o direito a mudar de ideias!

James Runcie
Autor do documentário para TV J.K. Rowling: Um Ano na Sua Vida

Data de publicação: 20/11/2012
Fonte: Diário de Notícias
Jornalista: João Céu e Silva