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Padre Carreira das Neves: A História de Deus

As religiões e os seus grandes protagonistas numa perspetiva histórica, dos tempos primitivos aos dias de hoje, numa visão alargada e plural do fenómeno de Deus. Uma obra que interpela a fé e a razão, o conhecimento científico e tecnológico, e reflete sobre a necessidade de dessacralizar as escrituras

A questão é antiga e foi repetida ao correr dos tempos, mas o padre Carreira das Neves, 78 anos, entende que vale a pena formulá-la de novo hoje: Deus existe? É a pergunta que tomou como nome e ponto de partida para o seu livro, edição Presença, recentemente chegado às livrarias. Por ele, confessa, responderia numa palavra - sim, uma afirmação implicada no sentimento e na racionalidade, na fé. Mas para encontrar a resposta de uma forma mais alargada escreveu quase meio milhar de páginas.

Não é um tratado teológico, ainda que estivesse bem habilitado para o fazer, já que é teólogo, doutorado em Salamanca, e prof. catedrático (jubilado), precisamente de Teologia, na Universidade Católica. Tão pouco uma dissertação filosófica ou sociológica ou uma obra doutrinária. O padre Carreira das Neves segue sobretudo a perspetiva histórica, porque justamente, como adianta, Deus também é História. O ponto de vista é ecuménico. Dito de outra maneira, Deus existe? interroga os tempos e todas as religiões, dos cultos pré-históricos às manifestações new age ou à 'religião americana', do hinduísmo ao cristianismo, passando pelo budismo e pelo islamismo, destacando os seus grandes 'protagonistas', Gandhi, Dalai Lama, Cristo ou Maomé. E a um tempo interroga as ligações perigosas entre a religião e a política, os fundamentalismos passados e presentes, ou o diálogo por vezes de surdos entre a fé e a razão, a religião e a ciência.

Foi a relevância que a questão religiosa e dos fundamentalismos assumiu nos tempos que correm que o levou a pôr mais uma vez a interrogação: Deus existe?
É uma questão que tem que ver com a nossa cultura, com a guerra e a paz, com os problemas com os muçulmanos e os islâmicos, mas também com os cristãos e os judeus, com budistas e hindus. A minha finalidade com este livro foi dizer, e repito-o várias vezes, que Deus é fenómeno e as religiões são epifenómenos.

Em que sentido?
Estamos realmente diante de um grande mistério. Em fenomenologia, diríamos que Deus é um acontecimento, um fenómeno e as religiões são realizações desse fenómeno ao longo da História.

Decidiu-se por uma perspetiva histórica condutora. Porquê?
Para mim, a História é um filme em ação, em que todos somos atores. E ao longo dos tempos, houve grandes homens religiosos que se destacaram como protagonistas. Por exemplo, falo de Gandhi, uma figura concreta, ainda do meu tempo, para chegar ao hinduísmo. Da mesma maneira, em relação ao budismo, começo por apresentar o Dalai Lama. E Moisés para os judeus, Jesus Cristo para os cristãos ou Maomé para os islâmicos. É através desses protagonistas que situo as religiões. E tenho uma outra intenção no meu livro, que é dessacralizar o mito das Sagradas Escrituras.
 

Interpretar As Escrituras

Dessacralizar?
Sim. Porque tudo é História. Foram pessoas crentes, judeus, cristãos, islâmicos, que pouco a pouco fizeram as Sagradas Escrituras. Portanto o Antigo e o Novo Testamento, as Escrituras hebraicas, as Escrituras cristãs e também o Alcorão. Não as devemos sacralizar. Esse sempre foi e continua a ser um erro.

Fonte de muitos conflitos até mesmo na atualidade?
Se sacralizo os Upanishades, as Escrituras hindus ou budistas, a Bíblia ou o Corão, faço delas uma espécie de divindades. Isso tem que ser desmistificado. Não se trata de pôr em causa a fé das pessoas que acreditam. Simplesmente, através de métodos histórico-criticos, da crítica literária, importa perceber como as Escrituras nasceram, cresceram e continuaram até aos dias de hoje. Se as pessoas as entenderem assim, não teremos guerras santas. Porque estamos diante de Escrituras muito importantes, que estão na raiz de todas as religiões, mas temos que interpretá-las. Toda a Literatura tem que ser interpretada. Daí também o meu percurso histórico pelas religiões que, embora tenham dado muita paz, amor, misericórdia, homens e mulheres extraordinários, infelizmente, ao longo da História, causaram muitas guerras, precisamente por causa das leituras fundamentalistas das Escrituras. Por outro lado, temos que compreender que todas as religiões são epifenómenos identitários. Nesse aspeto, qualquer religião pode ser gravemente ferida por causa de outros povos, tribos, nações. Vejamos o que está a acontecer por causa de um filme que não vale nada e pôs muitos islâmicos contra os americanos, os europeus, contra as outras religiões. Não tem sentido nenhum. É uma reação incompreensível, diante do moderno, da Razão e da liberdade de expressão. De facto, ponho a questão do Corão de uma forma completamente diferente. Espero que não mandem nenhuma fátua contra mim...

Em Deus existe? fala, aliás, do diálogo entre a Razão e a Fé. Não é difícil?
Essa é outra função do livro: falar do diálogo entre a Fé e a Razão, a Ciência e a Fé ou entre a Tecnologia e a Fé. Vivemos num mundo de alta tecnologia, ninguém sabe o que irá dar e a minha finalidade é reflectir sobre isso, tal como dar um diálogo ecuménico entre todas as religiões.

O seu livro tem intencionalmente uma raiz ecuménica?
Sim. Incluindo até ateus e agnósticos. Um diálogo verdadeiramente ecuménico. Eu acredito em Deus. Mas evidentemente que muitas religiões e igrejas fizeram e fazem bem e mal, porque pertencem à História e os homens são todos santos e pecadores. Todos trazemos dentro de nós uma inclinação para o bem e uma inclinação para o mal. As próprias criancinhas, os anjos de Deus, também batem o pé... Não somos seres quimicamente puros e se o fôssemos não seríamos homens e mulheres, com razão, consciência e liberdade.

Acredita que Deus existe pela Fé ou pela Razão?
Usando a Razão. Leio muito Ciência, tudo o que é Física Quântica, Biologia, Genética... Não deixa de referir-se ao famoso Bosão de Higgs, ao que tudo indica recentemente identificado, a que chamam 'a partícula de Deus'. Estou a ler um livro espantoso de Francis Collins, intitulado The Language of God. É um grande cientista americano, que começou por se dedicar à Física Quântica, depois à Biologia e ao genoma. Sempre ateu. Mas pela Ciência, ele acabou por descobrir Deus. Porque concluiu que não podia compreender o Universo, mesmo à luz da Ciência mais avançada, sem a existência de uma energia, de uma força ou seja lá o que lhe chamemos. Enfim, sem Deus. E o que verifico nas minhas leituras é que a Ciência mais avançada leva uns cientistas a não acreditarem na existência de Deus e outros a acreditarem, o que não deixa de ser engraçado. Andamos sempre nesse binómio, nessa dialética, nessa tensão. Eu caio claramente para o lado de Deus. Claro que também tem a ver com o facto de eu ser um homem de tradição católica, cristã. Nasci numa família com essa tradição, fui ao seminário, estudei, investiguei e modernamente tenho uma visão crítica da minha própria tradição, tal como de todas as religiões, da história. Da mesma maneira tenho uma crítica a fazer a toda a Ciência que se torna Deus.

Como?
A ideia de que a Ciência explica tudo e que tudo o que não é Razão não tem razão de ser. Julgo, de resto, que essa ideologia racional que tudo pretende explicar está profundamente ultrapassada. Mas compreendo perfeitamente as ideias de Voltaire e de tantos outros, diante das circunstâncias históricas do seu próprio tempo. Tudo é circunstanciado em relação ao tempo e à História. Portanto, eu sou um homem que sinto Deus, porque esta é também uma questão de sentimento e de afeto. E como sinto Deus dentro de mim, pelo sentimento, também o sinto pela minha razão, por todo esse processo de estudo e crítica textual e histórica.


Fundamentalismos e Liberdade

Aborda os fundamentalismos, quer o islâmico, quer o cristão, ou da chamada religião americana. Quer dizer que esse é um perigo inerente a todas as religiões?
E é curioso que nos grandes convénios internacionais de ecumenismo, como já aconteceram em Assis, onde estão presentes os responsáveis de todas as religiões, os únicos que não aparecem são precisamente os da religião americana. Isso é muito significativo para a paz no mundo.

Também é significativo que alguns sectores dessa religião americana defendam o criacionismo, negando todo o conhecimento científico de séculos.
E como é possível que no século XXI milhões e milhões de protestantes evangélicos sejam criacionistas, que não aceitem a evolução? Andei com muitos na América e aqui, em Portugal, tenho amigos entre eles, mas não o consigo entender racionalmente. Fazem da Bíblia o único livro da Ciência, a que toda a investigação científica tem que se submeter. E a Ciência que não está de acordo com a Bíblia, segundo eles, não é Ciência.

Ainda sobre as ligações entre a religião e a política, responsáveis por muitas guerras e por períodos negros da História, salienta que a Igreja Católica talvez seja aquela que mais se separou do Estado. Esse é um princípio fundamental?
A religião Católica deu de facto um salto com o Concílio do Vaticano II. Um salto que se resume numa palavra: liberdade, liberdade de consciência religiosa. O Cristianismo disse ao longo dos séculos que fora da Igreja não há salvação, isto fundamentado em alguns textos da Sagrada Escritura, e a Igreja Católica dizia-o porque a salvação vinha através de Cristo, único mediador entre o céu e a terra. A Igreja de Cristo não nasceu com Lutero ou com a Revolução Americana, sempre acompanhou a História, com guerras, inquisição, trapalhadas. Depois do Vaticano II, disse 'acabou'. Cada pessoa deve adorar o seu Deus, ter a sua religião e é preciso respeitar todas as religiões. Para termos esse respeito profundo é preciso estudá-las e conhecê-las. Mas dentro da própria Igreja Católica há pequenos movimentos contra o Concílio Vaticano 11, porque querem voltar ao antigamente.

A posições mais dogmáticas?
A Igreja Católica está hoje muito mais aberta à Razão, à Ciência, a tudo o que é diálogo e dialética. Porque deixou os fundamentalismos. Mas também foi fundamentalista. Agora é que os grandes teólogos, filósofos e exegetas católicos estão completamente abertos à discussão com todas as religiões e a todas as questões.


De qualquer forma, continua a ter os seus fundamentalismos, por exemplo na interdição do sacerdócio às mulheres, na proibição do preservativo ou na questão do uso terapêutico de células estaminais.
São matérias fraturantes. O que é relacionado com a sexualidade ou com a morte, com a ciência ou a tecnologia, sobretudo a Bioética, tudo isso é muito complicado. A Igreja Católica tem as suas tradições, os seus medos. Mas tudo é discutido. Há nomeadamente duas correntes, uma, mais avançada, que vai no sentido do cardeal Martini, que morreu há pouco tempo, a outra na Unha do Papa Bento XVI, da Cúria Romana. Mas nada tem que ver com a questão da liberdade religiosa, antes com coisas concretas como os padres casarem ou não. São, aliás, questões fraturantes dentro da sociedade, como é o caso da eutanásia. E como na Igreja somos milhões, também há uns que pensam de uma maneira e outros de outra.


Mau Estar Geral

Além da proliferação de igrejas e seitas americanas, assinala também os fenómenos new age, ligados a uma demanda de espiritualidade, muitas vezes a cultos da Natureza ou de pendor orientalista. Qual a sua explicação?
Tem que ver com o mal-estar que vivemos.

Em relação à política?
À política, à ciência, à tecnologia, ao racionalismo. Encontramo-nos num mal-estar generalizado em relação a tudo. É a crise. Há uma troika no mundo inteiro, poderíamos dizer. E perante essa situação provocada pela crise económica, mas também pelos medos em relação à tecnologia e onde nos poderá levar, as pessoas tendem a interiorizar. Mas por vezes apenas pelo afeto, voltando a essa 'new age', a movimentos religiosos ligados à ecologia, ao sol, à lua, às estrelas, ao mar. E assim sentem uma certa paz interior. Chamemos-lhe a paz de Deus. Não se trata de um Deus-Pessoa, de um Deus que se revela, mas de um Deus que se revela interiormente a cada um de nós. Isso é interessante. Conheço muitas pessoas que não acreditam num Deus-Pessoa, como eu, mas andam por aí nos rios, nos parques, nas montanhas a falar com as flores, com os animais e sentem essa paz, que vem, de uma maneira geral, através do Oriente, sobretudo da Índia.

A morte de Deus já foi declarada ao correr da História, por vários pensadores e movimentos.
Apesar de todos esses anúncios e da ideia de Deus ter quase desaparecido da cultura, sobretudo da Europa, como faz notar no seu livro, visto que nos Estados Unidos continua omnipresente até a nível político, ainda faz sentido pôr a questão da existência de Deus?

A verdade é que há um ressurgir de Deus. Grandes sociólogos e pensadores, sobretudo na perspetiva da sociologia e da filosofia das religiões, depois do século XVIII abordaram principalmente o animismo, entendendo-se que as pessoas eram naturalmente religiosas, mas com o tempo, a evolução tecnológica e científica, essa religiosidade tendia a desaparecer. Previram mesmo que seria em poucos séculos. Só que hoje a religião está a renascer de muitas formas. Como digo na introdução, mesmo os sociólogos fazem hoje mea culpa, porque o que os seus antepassados pensaram não aconteceu.

A pergunta 'Deus existe?' é de todos os tempos?
É. Porque inevitavelmente pensamos na doença, na morte, se há ou não Além, em Deus. O problema é que as pessoas não querem ou talvez tenham medo de pensar.

Data de publicação: 31/10/2012
Fonte: Jornal de Letras
Jornalista: Maria Leonor Nunes